Ela como era

Eu acordava todo dia antes. Separava o coador e o bule. 20 minutos o café já estava cheirando irresistível. Tempo que ela já estava de pé. 

Era um lindo rito de entrada. Vinha tateando toda a parede até a porta da cozinha, colocava a rosto e sorria. Iluminava todo o cômodo.

Nunca foi nada demais, para ela. Não pensava, só fazia. A camisola rosa, verde, azul, bem leve, caía junto à cadeira que puxava da mesa ao sentar. Os cabelos soltos e rebeldes presos entre o pão e a boca. Não usava xícara, preferia o copo e colher tamanho normal para colocar açúcar. Não era das puristas, mas pragmáticas. Queria é energia.

A fitava de perto. De longe, ela não gostava, se sentia vigiada. Mas não se importava com a minha cara de babaca assistindo-a esmagar cada migalha caída do pão com o dedo e colocar na boca.

Levantava e ia direto para o banho. Eu lavava a louça. Era o tempo dela terminar e sair enrolada na toalha, mas com os seios respingando de fora, direto para o quarto. Deixava pegadas molhadas pelo caminho.

Ela nunca gostou, eu sabia, mas fazia questão de a surpreender se penteando em frente a um espelho-porta-de-armário-quebrado guardado debaixo da cama. Era engraçada, já ia se justificando que seus cabelos eram secos demais e fazia aquilo para não ficarem voando para dentro do ouvido.

A partir dali, não havia dia-a-dia além de não haver dia-a-dia. Era assim, sempre ela. Queria cozinhar, cozinhava, desenhar, desenhava, escrever, correr, dançar, ouvir música… Era sempre ela, como era. Autêntica, verdadeira, linda. 

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Erro Funcional

Ana era muito simpática. Acordava todo dia já agradecendo o sol, por ele nascer. Aliás, se desculpava por ele ter que brilhar para ela poder viver. “Ó, meu deus! Me dê uma solução para a morte térmica do universo!”, lamentava consigo mesma, após prometer não se utilizar mais da cadeia alimentar.

Biel era um ogro de pessoa. Para ele, faltavam estrelas no céu da noite a iluminá-lo. “Se existir mesmo algum arquiteto supremo, certamente, não é inteligente o suficiente para perceber que eu preciso de mais luz às 3 da madrugada”, resmungava depois de ter que acender o abajur da cabeceira da cama.

Ana e Biel trabalhavam juntos no mesmo escritório. Chefe, Ana chegava cedo na firma para garantir que tudo estivesse pronto quando chegassem os outros funcionários. Secretário, Biel achava desnecessário ajudá-la.

A firma era grande. Tinha uns 70 funcionários. Ocupava 2 andares de um prédio comercial conceituado do centro da cidade. Um dia, olhando lá de cima da janela da sala da Ana, Biel reclamou com o vento, que ‘do 14º andar não dava para ver se o trânsito de volta para casa estava bom ou ruim. Outro, Ana agradeceu ao térreo por sustentar toda aquela altura de concreto sobre concreto e subiu pela escada mesmo, ‘para não pesar as engrenagens do elevador’.

O balanço trimestral indicava que estava indo tudo bem, obrigado. A empresa tinha batido todas as metas em pelo menos 200%. E já era o 5º resultado positivo desde que Ana assumira a administração. Biel olhava para aqueles números e pensava que não estavam a altura de seu secretariado. Ana via o quão bondosa a economia estava sendo com ela e até queria pagar os dividendos do ano seguinte adiantados, como forma de agradecimento.

Certa noite, depois de servir 2 horas a mais pelo bem-estar de seus funcionários, em casa, Ana abre sua caixa de entrada para organizar a agenda do dia seguinte. Ela estava demitida.

Pela manhã, Biel acorda reclamando do sol bater tão forte em sua janela. Levanta para fechar a cortina se queixando de não poder comprar daquelas que é só puxar a cordinha e a persiana se fechar e vê que há uma notificação piscando no celular. Ele havia sido promovido.

Roda-gigante

O bairro aqui onde moro costumava receber, de três em três meses, o Play City. É um tipo de parque-circo que vive mudando de lugar, estilo itinerante. Hoje em dia, o terreno que eles alugavam virou um shopping.

Eu frequento bastante. De modo que tudo que escrever aqui não tem nada contra o empreendimento. É muito bom lamber os dedos no MC Donalds todo fim de semana.

Mas as vezes eu me pego olhando pela janela do meu prédio pensando o quão bom era se divertir nos brinquedos dali doutrora. Assim que percebia a movimentação de caminhões trazendo o aparato para montagem, começava a guardar o dinheiro que meu pai me dava para lanchar no colégio. Já cheguei a ficar um mês inteiro sem comer para poder comprar tickets e ir todo final de semana lá com a galera.

Os brinquedos mais famosos eram aqueles que não podíamos ir, claro. Óbvio que dávamos nosso jeito. Os moleques mais altos se posicionavam na fila de uma forma a esconder os mais baixos e assim entrávamos desapercebidos.

A montanha-russa não era tão fascinante se comparado com as que víamos na TV, mas isso não diminuía nem um pouco nossa vontade. Repetíamos várias vezes o mesmo brinquedo. E eram sempre os mesmos moleques. E a mesma zoeira.

Tinha um tal de Samba – uma plataforma circular que se movia para cima e para baixo e girava aleatoriamente embalada por motores a pistões hidráulicos. O pessoal se sentava e amontoava-se como dava para não cair, sem nenhum cinto ou amarra de segurança. Os pais reclamavam achando o brinquedo inseguro. Ninguém entendia que o legal era exatamente esse perigo “descontrolado”.

Com o passar dos anos a galera foi crescendo e perdendo contato. Alguns colegas de parque eu ainda converso, as vezes, pelo Facebook. Mas é sempre algo sem propósito. Até a minha primeira namorada, que conheci justamente ali, eu não sei por onde anda.

Eu e ela éramos muito tímidos, na nossa pré-adolescência. Tínhamos vergonha até de assumir o namoro um para o outro. O primeiro beijo – dela, não meu – aconteceu justamente no Play City. Coloquei o nome próprio do parque aqui para diminuir o romantismo do que direi a seguir. 

Aconteceu no topo da roda-gigante. Eu podia sentir o vento fresco da noite soprar, porque os cabelos dela voavam na minha cara e, eventualmente, uns pelos paravam entre os nossos lábios. E, naquele mel todo, mal percebemos que o carrinho já havia descido. E que todos observavam. Minha mãe, meus irmãos, meus colegas.

Lembro até hoje da raiva que sentia da minha mãe toda vez que ela dizia o quão fofo achava que éramos, depois do ocorrido. Na escola, eu cheguei até a discutir com os moleques para que eles parassem de me zoar com a brincadeira do “tá namorando!”.

Hoje em dia, os adolescentes que vejo por ali não fazem muito diferente. Vão no shopping para se divertir e azarar. É verdade que o pudor é menor – eles se pegam em todos os cantos, da praça de alimentação ao estacionamento, e caçoam até dos velhinhos. Mas a essência do local continua a mesma: diversão, encontro com amigos e pegação. 

Na roda-gigante, o carrinho gira e sobe, mas sempre volta para o início.

Curiosidade,ainda existe um estabelecimento ao lado dali que continua tão divertido quanto as histórias contam.

Quem deve ver isso? Melhores Amigos, exceto conhecidos

– Já tem um tempo que eu não tenho notícias ▆▆. Seu último post no Facebook foi no dia 11 de novembro.
– E daí? Férias, honey, férias…
– Sim… Mas eu não acho que seja por causa disso.
– Aff… Você é muito chato, sabia… Já vai começar com suas teorias idiotas…
– Não é teoria. Todo mundo atualiza o Facebook, hoje em dia. Ainda mais nas férias… O pessoal posta várias selfies e fica curtindo coisas desnecessárias, porque não tem nada para fazer…
– Pode crer…
– Até eu que não uso muito Facebook posto com maior frequência.
– Mas e daí? O que você está achando que é?
– Parece que ▆▆ está restringindo algumas publicações para mim.
– Eu achei que você fosse falar que achava que ▆▆ tinha perdido o celular, estava sem internet ou que a conta ▆▆ foi hackeada…
– Eu analisei a regularidade de publicação dos posts aos quais eu tenho acesso. O período mais longo que ▆▆ demorava para atualizar era de 1 semana.
– Não estou entendendo.
– ▆▆ deve ter me colocado como “restrito” ou “conhecidos”. Não acho que ▆▆ tenha parado de usar o Facebook, só que eu não receba mais a maioria de suas publicações.
– Mas isso quer dizer o quê?
– Quer dizer que eu estou preocupado.
– Hã?
– É. Eu nunca me senti tão mal por não ter notícias de alguém. E o fato ▆▆ ter me adicionado na lista de restritos me deixa muito triste.
– Calma, meu boyzinho. Vai ver que ▆▆ não está mais usando o Facebook e seja só isso mesmo..
– É… Deve ser isso mesmo.

– Sabe de uma coisa?
– O que?
– Você gosta ▆▆.

Amizade, lealdade, intensidade

Cada vez mais, me fica mais claro que amizade não é uma questão de tempo. Na verdade, me parece que tem mais haver com intensidade, lealdade, momentos.

Há amigos que há tempos não falo e vejo. Sim, amigos. Não é porque não tenho mais contato, que deixamos de ser. Os momentos que vivemos, no passado, permanecem. Nossas “cumplicidades e vilanias”, tenho certeza.

Você pode questionar “Ora, se são amigos de verdade por que não mantêm contato?” Pressuposto falso. Mantenho contato com diversas pessoas conhecidas há muitos anos e não as considero amigas. Além disso, tenho amigos que passo tempos sem ver ou falar, mas quando nos encontramos é aquela “non-stop zueira”. Coisa só de amigo, mesmo.

Mas, para mim, “friendship” mais do que qualquer questão de tempo é confiança mútua. Saber que aquele conselho pedido numa noite de embriaguez nunca será revelado, que aquela besteira dita, será relevada, que aquela fraqueza notada será tapada e protegida. Amizade é isso, lealdade.

E que fique claro que não tem nada haver com dinheiro. Mas, se precisar, sempre estamos aí. E a porta de casa está aberta para o que der e precisar. Já ouvi dizer que amizade é um namoro sem sexo e carinho. Tenho que admitir –  mesmo um pouco constrangido – que é isso mesmo.

Amizade é muito. É mais que isso. É lealdade, intensidade e momentos. Tempo não tem muito haver não. Há amigos de poucos encontros, mais chegados que irmãos, de muitos.

Argumentos de Autoridade

No meu ensino médio eu tive um professor de matemática que gostava muito de lógica e era bem dado para Filosofia. Isso era bom, porque as suas aulas de matemática eram bem pouco convencionais.

No ano seguinte, de tanto reclamarmos que ele não era um professor de matemática, mas de Filosofia, ele pediu para trocar de disciplina e passou a lecionar a tal matéria. Acabou sendo igualmente pouco convencional,porque era um professor de Matemática, ensinando Filosofia. O objetivismo contrabalanceou o subjetivismo, se é que me entendem.

O fato é que ele expôs muito espertamente os tipos de falácia mais comuns. A que é pertinente comentar, agora, é o argumento de autoridade.

Sabe quando se diz que o especialista em determinada área declarou isso e aquilo e, portanto, o que foi dito é verdade. É isso.

O argumento de autoridade é algo que se deve tratar com muita cautela. Especialistas sabem do que falam. No entanto, não necessariamente, estão corretos. Eles somente tem conhecimento de causa maior que o não-especialista.

Esses dias estive discutindo muito Política. E, no meio da discussão, sempre insistia um imbecil a levantar o tal argumento. Até que me irritei.

Resolvi questionar o porquê de, por Fulano ter dito A, A ser verdade. Ele não tinha argumentos. Claro que não tinha! Ele simplesmente tomou aquilo que um outro alguém supostamente sabido dissera como verdade e repetiu! O famoso preconceituoso! No fim, consegui explicá-lo que, por C, D e E, A que o tal Fulano dissera era questionável. E, assim, terminamos inteligentemente a conversa.

Pelo amor de Deus, não tome como verdade argumentos de autoridade! Autoridade não é verdade!

Assinado: Zé Ninguém.

3° trimestre aponta 2° semestre fraco

A safra do último trimestre não foi boa. O déficit no boletim foi de 3 pontos, com margem de erro de 0,5 para mais ou para menos.

Os especialistas dizem que foi falta de interesse meu. E eles estão corretos.

É incontestável que eu não queira mais isso. Admito, aliás, nunca escondi: estou empurrando tudo com a barriga.

Penso que a maioria das pessoas deve achar isso uma loucura. E eu concordo, completamente, com elas. É loucura jogar tanto tempo, 3 anos, fora.

E, o pior, é que já estamos nos aproximando do fim da segunda quinzena desse trimestre e sinto que eu estou repetindo os mesmos erros do último.

Mas quer saber? No fundo, acho que isso não importa muito. Não somente porque eu não me interesse, mas, principalmente, porque não é assim que deve se medir a vida, com notas em boletins semestrais. Ninguém vive contando trimestres, afinal…